A Verdade

(Carlos Drummond de Andrade)

A porta da verdade estava aberta,

mas só deixava passar

meia pessoa de cada vez.


Assim não era possível atingir toda a verdade,

porque a meia pessoa que entrava

só trazia o perfil de meia verdade.

E a sua segunda metade

voltava igualmente com meio perfil.

E os meios perfis não coincidiam.


Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.

Chegaram ao lugar luminoso

onde a verdade esplendia seus fogos.

Era dividida em metades

diferentes uma da outra.


Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.

Nenhuma das duas era totalmente bela.

E carecia optar. Cada um optou conforme

seu capricho, sua ilusão, sua miopia.

1 comentários:

May Alek disse...

Olá, Sheila!
Obrigada pelos comentários no meu blog.

Gostei muito do que vi aqui. É um blog instrutivo e muito bonito. Parabéns!
Bjs